Nu Como Um Yanomami
Percorro o meu interior
E me vejo nu como um yanomami.
Ando pelas encostas do meu ser
e vejo claramente as florestas
largas e repletas de Ɣrvores fortes e floridas;
largas e repletas de frutos maduros;
largas e repletas de plantas verdes.
Ando em meio as Ôrvores e não percebo o bosque.
em meio aos frutos e não posso comer;
em meio as plantas e não sinto o seu aroma.
Caminho em direção ao rio que vejo ao longe;
rio que tem curso calmo.
Ćs vezes suas Ć”guas, que nunca sĆ£o as mesmas,
descem velozmente ao encontro de um mar
que Ć© só meu, Ćŗnico e indescritĆvel...impenetrĆ”vel.
Ando ao encontro desse rio, cujas Ôguas são azuis,
e chego exausto e trĆŖmulo.
Nele, molho a minh?alma que se encanta e se enleva,
e chego a perceber o bosque: imenso e Ćŗmido.
OuƧo o cantar dos pƔssaros!
E como dos frutos das Ôrvores próximas: maduros e doces, que me são
permitidos comer!
E sinto o aroma das plantas adjacentes: perfume silvestre.
Cheiro suave!
Sigo atravessando o rio e não desejo chegar.
As suas margens ainda estão largas,
mas se estreitam Ć medida que caminho:
a passos lentos e firmes...inseguros Ć s vezes. NĆ£o desejo ainda chegar.
As suas Ɣguas continuam a bater nas encostas do meu ser.
Volto-me a mim e reconstituo o caminho de volta.
Deixo para trÔs um rio lento e suave a caminho do mar, que não consigo
enxergar, ainda que o veja: não estou mais nu, não me conheço.
Continuo, contudo, um yanomami.
Juscelino V. Mendes